quinta-feira, 22 de julho de 2010

Rob Bell em Repintando a Igreja: Uma Visão Contemporânea

“No que diz respeito a ter fé, todo mundo tem. As pessoas quase sempre me dizem que nunca conseguiram ter fé, que isso é muito difícil. A idéia de que algumas pessoas têm fé e outras não têm é muito comum. Mas não é verdadeira. Todo mundo tem fé. Todos seguem alguém. O que em geral acontece é que as pessoas com convicções específicas acerca de Deus acabam encurraladas, defendendo sua fé da racionalidade calma e apática dos outros. Como se apenas elas tivessem fé e convicções, as outras, não.

Isso, porém, não é verdade. Vamos pegar um exemplo: Algumas pessoas acreditam que fomos feitos por um criador, que tem planos e objetivos para sua criação, enquanto outras acreditam que não há nenhum sentido extraordinário para a vida, nenhum grande projeto, que nós existimos não por causa de alguma intenção divina, mas por simples acaso. Não se trata de uma discussão entre pessoas de fé e pessoas que não têm fé. As duas perspectivas baseiam-se na fé, fundamentando-se em um sistema de crenças. Quem diz que estamos aqui por acaso e não há nenhum sentido especial nisso tem exatamente o mesmo tanto de convicções que a pessoa que afirma a existência de um criador. Talvez até mais.

Pense em algumas palavras empregadas nesse tipo de discussão. Entre elas, a mais comum é a expressão ‘mente aberta’. Em geral, o que tem convicções espirituais é considerado alguém de mente fechada; os outros são vistos como pessoas de mente aberta. O que me fascina é o fato de que o centro da fé cristã é a premissa de que esta vida não é tudo o que existe. Que a vida é mais do que a matéria. A existência não se limita ao que vemos, tocamos, medimos, ouvimos, degustamos e observamos. Uma das principais afirmativas da visão de mundo cristã é que existe ‘mais’. Os que se opõem a esse conceito insistem em que o que vemos aqui é tudo o que há; somente o que se pode medir e observar com os sentidos é real. Nada mais existe. Qual dessas opiniões revela mais uma ‘mente fechada’? Qual visão de mundo é mais ‘aberta’?

O ateu é alguém com tremenda fé. Em nossas discussões acerca das coisas que mais importam, não nos detemos na fé ou na ausência dela. Crença ou não-crença. Estamos falando acerca de fé em algo. Crença em quê? A verdadeira questão não é se temos ou não temos fé, mas em que nós a depositamos.
Todos seguem alguém. Todos nós tomamos decisões todos os dias acerca do que é importante, de como tratar as pessoas e do que fazer da nossa vida. Essas decisões têm como pano de fundo o que acreditamos acerca de cada um dos aspectos de nossa existência. Nossas convicções têm origem em algum lugar. Fomos moldados, todos nós, por essa complicada combinação de pessoas, lugares e coisas. Pais e mestres, artistas, cientistas, orientadores – cada um de nós recebe todas essas influências e vive de acordo com os princípios de que se apropriou. Alguns insistem em dizer que não são influenciados por ninguém, nenhuma religião, pensam por si mesmos. É uma opinião digna de respeito. O problema é que essa opinião vem… de alguém. Eles seguem alguém apesar de afirmarem que é a eles próprios que estão seguindo.

Todo mundo segue alguém. Todo mundo tem fé em algo e em alguém.

Somos todos crentes.”

(Rob Bell em Repintando a Igreja: Uma Visão Contemporânea, Editora Vida, 2008 – pp.19-21)
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